Erros ao comprar energia solar que custam caro
Os erros ao comprar energia solar que mais custam caro são três: dimensionar o sistema por uma conta errada, escolher só pelo menor preço por kWp e assinar um contrato que não diz exatamente o que será entregue e quando. Quase todos os outros problemas, de geração abaixo do prometido a retorno que nunca chega, nascem desses três. A boa notícia é que todos são evitáveis antes da assinatura.
Abaixo estão 12 erros concretos, cada um com o que acontece na prática e como evitar, e um checklist final para levar na hora de fechar negócio.
1. Dimensionar pela conta errada
O erro clássico é usar o valor em reais da última fatura, ou um único mês, para definir o tamanho do sistema. O que importa é o consumo em kWh e a média de 12 meses, porque o verão e o inverno mudam bastante o gasto.
Exemplo: uma casa com média anual de 400 kWh/mês recebe um orçamento baseado em janeiro, mês do ar-condicionado, com 550 kWh. Em uma cidade com 5 HSP, a conta correta é 400 ÷ (5 × 30 × 0,8) = 3,33 kWp (7 placas de 550 W). Pelo mês de pico, 550 ÷ 120 = 4,58 kWp (9 placas). São duas placas a mais e um sistema cerca de 37% maior gerando crédito que você talvez nunca use.
O inverso também acontece: subestimar o consumo de quem vai comprar carro elétrico, ar-condicionado ou mudar para home office. Como evitar: leve o histórico de 12 meses, informe mudanças previstas e confira a conta com a calculadora de quantas placas.
2. Ignorar a sombra
Uma sombra parcial de chaminé, caixa-d'água, árvore do vizinho ou prédio ao lado pode derrubar a geração de toda uma fileira de placas ligadas em série, não só da placa sombreada. Segundo pesquisa da Greener com clientes de sistemas comerciais, divulgada pelo Canal Solar, geração abaixo da calculada aparece entre as reclamações mais citadas, ao lado de infiltração no telhado e defeito no inversor.
Como evitar: exija visita técnica (ou imagem de satélite com análise de sombreamento), pergunte em que horários há sombra no inverno, quando o sol fica mais baixo, e, se houver sombra inevitável, peça a avaliação de microinversores ou otimizadores.
3. Comprar só pelo menor preço por kWp
Dois orçamentos de 4 kWp podem ter diferença grande de preço e não estar vendendo a mesma coisa. O mais barato pode trazer placas de marca sem registro no Inmetro, inversor de menor garantia, estrutura genérica, sem projeto, sem seguro e sem acompanhamento da homologação. O Procon de Cachoeiro de Itapemirim (ES), em alerta publicado em agosto de 2026, lista justamente "não escolher só pelo menor preço" e "comparar o que cada proposta inclui" entre os 12 cuidados antes de assinar.
Como evitar: compare item por item: marca e modelo das placas e do inversor, estrutura, cabos e proteções, projeto, homologação, instalação, garantia de serviço e prazo. O passo a passo está em como avaliar orçamento de energia solar.
Um detalhe que pesa aqui: proposta com "placa de 550 W ou equivalente" deixa a empresa livre para entregar outro equipamento, ponto também citado pelo Procon. Exija marca e modelo exatos e confira o registro em registro.inmetro.gov.br/consulta: o registro ativo aparece com a letra "A".
4. Não checar projeto, responsável técnico e homologação
Todo sistema ligado à rede precisa ser aprovado pela distribuidora. O caminho, pela Resolução Normativa ANEEL 1.000/2021, inclui solicitação de acesso, parecer de acesso, instalação, vistoria e troca do medidor. O Canal Solar resume os prazos da distribuidora: até 5 dias úteis para checar documentos e 15 dias para o parecer de microgeração sem obras na rede.
Sobre a ART (Anotação de Responsabilidade Técnica), há um detalhe que confunde: a ANEEL retirou a exigência da ART dos formulários de acesso em 2022, mas o Crea entende que ela continua obrigatória pela Lei 6.496/1977. Na prática, a ART é a sua garantia de que existe um engenheiro ou técnico respondendo pelo projeto.
Como evitar: peça no contrato quem é o responsável técnico, a emissão da ART e que a empresa cuide da homologação até a troca do medidor. Sem homologação, o sistema não pode injetar energia, e você não recebe créditos.
5. Aceitar inversor subdimensionado
É comum o inversor ter potência um pouco menor que a soma das placas; isso é aceitável dentro do limite que o fabricante informa. O problema é exagerar para baratear: nas horas de sol forte, o inversor corta a potência excedente (clipping) e a energia é perdida. Também existe o erro oposto, de inversor no limite sem espaço para ampliar o sistema depois.
Como evitar: pergunte a relação entre potência de placas (kWp) e do inversor (kW), confira se está dentro do sobrecarregamento máximo da ficha técnica e se há folga para uma futura ampliação. A calculadora de tamanho do inversor ajuda na conferência.
6. Ignorar a Fio B na conta do retorno
Para quem pediu acesso depois de 7 de janeiro de 2023, a Lei 14.300 tirou da compensação uma parte da tarifa de uso da rede, a Fio B, que sobe ano a ano: 60% em 2026, 75% em 2027 e 90% em 2028. Simulação que ignora isso promete um payback mais curto do que o real.
O Canal Solar fez a conta para a CPFL Paulista: com 60% da Fio B, cada 1.000 kWh injetados deixam de compensar cerca de R$ 123,90. O impacto varia por distribuidora e depende de quanto você consome na hora em que gera (o que é consumido na hora não paga Fio B).
Como evitar: exija que a simulação mostre a Fio B ano a ano até 2028 e o percentual de energia injetada considerado. Teste com a calculadora de impacto da Fio B e veja o método completo em payback da energia solar.
7. Prometer "zerar a conta" ignorando o custo de disponibilidade
Nenhum sistema ligado à rede zera a fatura. Fica sempre um valor mínimo, mais a contribuição de iluminação pública e impostos que a distribuidora cobra. O custo de disponibilidade, definido pela Resolução Normativa ANEEL 1.000/2021, é cobrado em reais pelo equivalente a 30 kWh na ligação monofásica, 50 kWh na bifásica e 100 kWh na trifásica (o tipo de ligação aparece na sua fatura). Segundo o próprio Canal Solar, pela leitura da área técnica da ANEEL, o custo de disponibilidade e a Fio B não se somam: paga-se o maior dos dois.
Exemplo: uma casa bifásica que gasta 400 kWh e dimensiona o sistema para 400 kWh vai gerar crédito sobrando, porque continuará pagando pelo menos o equivalente a 50 kWh. Faz mais sentido dimensionar para cerca de 350 kWh e economizar placas.
Como evitar: desconfie de quem promete "conta zero". Peça a estimativa da fatura depois do sistema, com o valor mínimo e as taxas.
8. Entender mal a garantia
"25 anos de garantia" quase sempre é a garantia de desempenho das placas (quanto da potência elas mantêm com a degradação), não a de defeito. O Canal Solar resume os prazos mais comuns dos fabricantes: inversor com 5 anos, placas com 10 anos contra defeito de fabricação e 25 anos de desempenho. Já a instalação tem garantia própria, dada pela empresa, e costuma ser bem menor.
Pelo Código de Defesa do Consumidor (art. 18), integrador, distribuidor e fabricante respondem juntos por defeitos. Mesmo assim, se a empresa fechar, você vai depender do fabricante ter assistência no Brasil.
Como evitar: peça os termos de garantia de cada equipamento por escrito, a garantia da instalação (incluindo infiltração no telhado) com prazo definido e quem atende o chamado.
9. Estrutura inadequada ao telhado
Telha cerâmica, fibrocimento, metálica e laje pedem fixações diferentes. Estrutura errada ou mal vedada causa goteira, telha quebrada e, em vendaval, placa arrancada. Esses problemas também aparecem na pesquisa da Greener citada acima.
Como evitar: confirme o tipo de estrutura no contrato (marca e modelo, próprio para o seu telhado), peça avaliação da condição do telhado antes da instalação e garantia contra infiltração. Se o telhado for velho, troque antes: desmontar e remontar o sistema depois custa caro.
10. Contrato sem prazos e sem lista completa
Atraso na instalação também aparece entre os problemas relatados na pesquisa da Greener. Sem prazo escrito, você não tem como cobrar.
Como evitar: o contrato precisa ter prazos de entrega dos equipamentos, instalação e pedido de homologação; multa por atraso; lista completa de itens com marca e modelo; quem paga cada taxa; e cronograma de pagamento atrelado às etapas, nunca 100% adiantado. O Procon recomenda guardar anúncios, mensagens e propostas, porque a publicidade também vincula a empresa. Se a pressão para assinar for grande ou a oferta parecer boa demais, leia golpes de energia solar antes de qualquer pagamento.
11. Financiamento com parcela maior que a economia
O argumento "a parcela cabe no lugar da conta de luz" só vale se a economia real (já descontada a Fio B e o custo mínimo) for maior que a parcela. Se não for, você paga mais por anos.
Exemplo de conta: uma conta média de R$ 450 que, com o sistema, cai para R$ 110 (valor mínimo, taxas e Fio B) gera economia de R$ 340 por mês. Uma parcela de R$ 420 em 72 meses significa R$ 80 a mais por mês durante seis anos. Antes de assinar, compare a parcela com a economia do primeiro ano, não com o valor cheio da conta.
Como evitar: simule taxas em pelo menos dois bancos, peça o custo efetivo total (CET) e use a calculadora de financiamento solar.
12. Comprar kit sem instalador
Comprar o kit pela internet e procurar quem instale depois parece economia, mas cria três riscos: o kit pode não combinar com o seu telhado e a sua ligação; muitos instaladores não aceitam dar garantia de serviço sobre equipamento que não forneceram; e alguém ainda precisa fazer o projeto e a homologação. Como evitar: se for comprar o kit separado, feche antes com o instalador, que deve aprovar a lista de equipamentos e assumir projeto, ART e homologação. Veja como selecionar a empresa em como escolher empresa de energia solar.
Checklist antes de assinar
- O sistema foi dimensionado pela média de 12 meses em kWh, já descontando o custo de disponibilidade?
- Houve visita técnica ou análise de sombra?
- Placas, inversor e estrutura estão com marca e modelo exatos, sem "ou equivalente"?
- Os equipamentos têm registro ativo no Inmetro?
- A proposta informa potência das placas, potência do inversor e a relação entre elas?
- A simulação considera a Fio B até 2028 e a degradação das placas?
- Há responsável técnico com ART e a empresa cuida da homologação até a troca do medidor?
- Garantias de equipamentos (defeito e desempenho) e de instalação estão por escrito, com prazos?
- O contrato traz prazos, multa por atraso e pagamento por etapas?
- A parcela do financiamento é menor que a economia real do primeiro ano?
- Você guardou proposta, anúncios e conversas?
Mais guias sobre preço, retorno e financiamento estão no tema Custos e retorno.
Perguntas frequentes
Posso desistir da compra de energia solar depois de assinar?
Se a contratação foi fora do estabelecimento comercial (internet, telefone ou visita do vendedor em casa), o Código de Defesa do Consumidor garante 7 dias para desistir sem justificativa, com devolução do que foi pago. Em compra feita na loja, a desistência depende do que diz o contrato.
Quanto tempo leva da assinatura até o sistema funcionar?
Varia conforme a empresa e a distribuidora. Somando entrega de equipamentos, instalação, parecer de acesso e vistoria, é comum levar de um a três meses em microgeração residencial sem obra na rede. Exija os prazos de cada etapa no contrato.
A empresa pode trocar a marca do inversor depois de assinar?
Só com a sua concordância por escrito. Se o contrato tiver marca e modelo definidos, a troca unilateral é descumprimento. Por isso evite propostas com "ou equivalente".
Vale a pena comprar energia solar em 2026 com a Fio B?
Na maioria dos casos ainda vale, mas o retorno é mais lento que o de quem tem direito adquirido. A conta muda bastante com o perfil de consumo: quem usa mais energia durante o dia sente menos o efeito da Fio B.
Onde reclamar se a empresa não cumprir o contrato?
Primeiro, formalize a reclamação com a empresa por escrito. Sem solução, registre no Procon da sua cidade ou na plataforma consumidor.gov.br. Para problemas na homologação causados pela distribuidora, a reclamação vai para a ouvidoria dela e, depois, para a ANEEL.