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Fio B: o que é e quanto pesa na sua economia

Por · Publicado em · Leitura de 11 min

O Fio B na energia solar é a parte da tarifa que paga o uso da rede da distribuidora (postes, cabos, transformadores e manutenção) e que, desde 2023, deixou de ser totalmente abatida pelos créditos de quem gera a própria energia. Em 2026, quem entrou no sistema depois de 7 de janeiro de 2023 paga 60% do Fio B sobre a energia que compensa; em 2027 serão 75% e, em 2028, 90%. Na prática, isso reduz a economia mensal em algumas dezenas de reais numa casa típica, sem tornar o sistema inviável.

O que é o Fio B, sem juridiquês

A conta de luz tem duas grandes partes. A TE (Tarifa de Energia) paga a energia em si. A TUSD (Tarifa de Uso do Sistema de Distribuição) paga o transporte dessa energia até a sua casa. Dentro da TUSD existem várias "fatias", e a que interessa aqui é o Fio B: o valor que remunera a própria distribuidora pela infraestrutura local, como explica o Canal Solar. Todo consumidor paga Fio B, com ou sem placas no telhado.

Com a Lei 14.300/2022, o marco legal da geração distribuída, o crédito da energia injetada deixou de "apagar" essa fatia por inteiro. Antes, cada kWh mandado para a rede e usado de volta à noite valia quase um kWh comprado. Agora, uma porcentagem crescente do Fio B é cobrada sobre essa energia compensada. É isso que muita gente chama de "taxação do sol".

Um ponto que confunde: o Fio B incide sobre a energia compensada, a que passou pela rede. O que a casa consome no mesmo instante da geração nem chega ao medidor como injeção. Segundo explicação do Canal Solar sobre fator de simultaneidade, o proprietário paga a taxa apenas sobre o excedente injetado. Guarde essa ideia, porque ela é a base de quase todas as formas de reduzir o impacto.

A regra de transição, ano a ano

O art. 27 da Lei 14.300 criou um escalonamento para quem pediu acesso à rede depois do prazo de proteção. A tabela mostra quanto do Fio B deixa de ser compensado em cada ano, conforme o texto da lei resumido pelo Canal Solar e pelo informativo jurídico da Mayer Brown sobre a lei.

AnoParte do Fio B que você pagaParte do Fio B ainda abatida pelos créditos
202315%85%
202430%70%
202545%55%
202660%40%
202775%25%
202890%10%
2029 em dianteRegra do art. 17 da lei, com valores que dependem de metodologia da ANEEL

A regra a partir de 2029 ainda não está fechada. O art. 17 manda a ANEEL calcular custos e benefícios da geração distribuída para o sistema e, com isso, definir o faturamento. A agência abriu a Tomada de Subsídios nº 23/2025 sobre o tema, com contribuições entre dezembro de 2025 e março de 2026, segundo o Canal Solar. Até setembro de 2026, segundo o Canal Solar, não havia cronograma oficial para a conclusão; desconfie de quem garante qual será a cobrança em 2029.

O ano de 2027 tem um artigo próprio, com os efeitos da passagem para 75%: veja o que muda com o Fio B em 2027.

Quem tem direito adquirido até 2045

O art. 26 da lei protegeu quem já estava no sistema ou entrou rápido. Têm as regras antigas mantidas até 31 de dezembro de 2045 as unidades que:

  • já tinham geração própria conectada quando a lei foi publicada, em 7 de janeiro de 2022; ou
  • protocolaram a solicitação de acesso na distribuidora em até 12 meses depois da publicação, isto é, até o início de janeiro de 2023.

Esse grupo costuma ser chamado de GD I e não paga Fio B sobre a energia compensada. Quem protocolou depois é o GD II e segue a tabela acima. Repare que o marco é a data do protocolo do pedido de acesso, não a data em que o sistema foi ligado.

Quem protocolou entre o 13º e o 18º mês após a lei (janeiro a julho de 2023) paga o escalonamento, mas só vai para a regra definitiva em 2031, conforme o resumo da Mayer Brown e a reportagem do Canal Solar.

O direito adquirido tem condições. Pelo art. 26, ele se perde com o encerramento do contrato com a distribuidora (troca de titularidade não conta) ou com irregularidade na medição atribuível ao consumidor, e numa ampliação a potência acrescentada depois do prazo entra na regra nova. Se você pensa em entender a Lei 14.300 em detalhes antes de ampliar o sistema, esse é o ponto a checar com a sua empresa instaladora.

Dica: para saber se você é GD I ou GD II, procure a data do protocolo da solicitação de acesso (ou do parecer de acesso) nos documentos da homologação. Se não tiver, a distribuidora informa pelo protocolo de atendimento. Muitas faturas também trazem a sigla "GD I" ou "GD II" na descrição da compensação.

Como o Fio B aparece na conta de luz

Não existe, na maioria das faturas, uma linha escrita "Fio B". Ele aparece de forma indireta, como diferença entre o que é cobrado e o que é devolvido pela compensação. A cartilha de faturamento de GD da Cemig é um bom exemplo. Na conta de um cliente GD II aparecem linhas como:

  • Energia Elétrica: o custo de disponibilidade (a taxa mínima, de 30, 50 ou 100 kWh conforme a ligação seja monofásica, bifásica ou trifásica);
  • Energia SCEE ISENTA: o consumo que foi compensado, cobrado pela tarifa cheia;
  • Energia compensada GD II: o crédito que devolve esse valor, com o desconto aplicado sobre a TUSD.

Nas palavras da cartilha, "a cobrança do Fio B está na diferença entre as linhas". Outras distribuidoras usam outros nomes, mas a lógica é igual: o crédito devolvido é menor que o valor cobrado pelo consumo compensado, e a sobra é o Fio B.

Outro detalhe que evita sustos: o Fio B e o custo de disponibilidade não são cobrados em dobro. Segundo a área técnica da ANEEL, citada pelo Canal Solar, compara-se o custo de disponibilidade com a soma do Fio B e do consumo não compensado, e paga-se o maior dos dois. Por isso, em casas pequenas, a conta muitas vezes continua parecida com a taxa mínima. Para entender cada campo da fatura, vale ler também sobre créditos de energia.

Quanto custa o Fio B em reais por kWh

O valor varia por distribuidora e é reajustado todo ano. Levantamento do Canal Solar com dados da ANEEL de janeiro de 2025 mostrou o valor integral do Fio B, sem impostos, em várias concessões:

DistribuidoraFio B integral (R$/kWh, jan/2025, sem impostos)
Copel-DIS (PR)0,15
CPFL Paulista (SP)0,19
Neoenergia Elektro (SP/MS)0,20
RGE (RS)0,21
Cemig-D (MG)0,25
Equatorial GO0,27
Energisa MT0,30
Neoenergia Coelba (BA)0,32
Energisa MS0,32
Equatorial PA0,39

Para 2026, o mesmo Canal Solar cita a CPFL Paulista: os 60% não compensados equivalem a R$ 0,1239 por kWh. Ou seja, a ordem de grandeza do Fio B integral fica entre R$ 0,15 e R$ 0,40 por kWh, e a parte que você efetivamente paga depende do ano da transição. Esses números servem para estimar; o valor exato da sua área está na resolução tarifária da sua distribuidora.

Exemplo: quanto o Fio B pesa numa casa

Vamos a uma conta realista, usando as referências do portal (placa de 550 W, 20% de perdas, mês de 30 dias).

Uma casa em Minas Gerais tem 8 placas de 550 W, ou 4,4 kWp. Com 5 horas de sol pleno por dia:

  1. Geração mensal: 4,4 kWp × 5 h × 30 dias × 0,8 = 528 kWh.
  2. A família consome 500 kWh/mês, mas só 30% da geração (cerca de 158 kWh) é usada no mesmo momento em que é produzida. O resto, cerca de 370 kWh, vai para a rede.
  3. À noite e nos dias nublados a casa puxa da rede uns 340 kWh. Suponha que, descontada a taxa mínima e os ajustes do mês, cerca de 300 kWh sejam compensados com créditos.
  4. Fio B integral de referência: R$ 0,25/kWh (valor da Cemig em janeiro de 2025, sem impostos).
AnoContaFio B no mês (estimativa)No ano
2026 (60%)300 × 0,25 × 0,60R$ 45,00R$ 540,00
2027 (75%)300 × 0,25 × 0,75R$ 56,25R$ 675,00
2028 (90%)300 × 0,25 × 0,90R$ 67,50R$ 810,00

Para ter noção do peso: na cartilha da Cemig, a tarifa do exemplo de fatura é de cerca de R$ 0,86 por kWh, então os 300 kWh compensados valem uns R$ 258. O Fio B leva perto de 17% disso em 2026 e 22% em 2027. É estimativa (tarifa e impostos mudam), mas mostra que a economia segue bem maior que a cobrança.

Na CPFL Paulista, com o valor de 2026 informado pelo Canal Solar, a mesma casa pagaria 300 × R$ 0,1239 = R$ 37,17 por mês.

Calcule o impacto do Fio B no seu sistema

Como reduzir o impacto do Fio B

Como a cobrança incide só sobre o que passa pela rede, a estratégia é simples: usar mais energia na hora em que as placas estão gerando.

1. Aumente o autoconsumo simultâneo

Cada kWh consumido na hora da geração escapa do Fio B. No exemplo, subir a simultaneidade de 30% para 50% tira uns 106 kWh por mês da rede: com Fio B de R$ 0,25 e 75% de cobrança em 2027, são cerca de R$ 20 por mês, ou R$ 240 por ano, sem gastar nada.

2. Desloque o consumo pesado para o dia

  • Programe máquina de lavar, lava-louças e secadora para o fim da manhã e o início da tarde.
  • Pré-resfrie a casa com o ar-condicionado à tarde, em vez de usá-lo no máximo à noite.
  • Use o timer do aquecedor elétrico de água (boiler) e da bomba de piscina para as horas de sol.
  • Se tiver carro elétrico, carregue de dia sempre que possível.

Quem passa o dia fora tem menos margem, mas timers e tomadas inteligentes ajudam.

3. Bateria, só em casos específicos

A bateria guarda a sobra do dia para a noite e evita a injeção, logo o Fio B. Mas uma economia de dezenas de reais por mês raramente paga sozinha um banco de baterias. Ela faz sentido quando há outro motivo: quedas de energia frequentes, cargas críticas (equipamento médico, freezer comercial) ou, no futuro, tarifas que premiem o consumo fora do horário de pico, como a tarifa branca. Analisamos esse cálculo em bateria solar vale a pena?.

Na regulação, as Resoluções Normativas 1.161 e 1.162 da ANEEL, de junho de 2026, tratam sobretudo de baterias de grande porte e não criaram regime específico para a bateria residencial ligada à geração própria, segundo o escritório Cescon Barrieu. A Consulta Pública nº 37/2026, com contribuições até 6 de novembro de 2026, propõe deixar a micro e minigeração distribuída fora do rateio do encargo que vai custear os leilões de baterias, segundo a newsletter do mesmo escritório. Nada disso muda o Fio B da sua conta hoje.

O Fio B torna a energia solar inviável?

Na grande maioria dos casos, não. O Fio B alonga um pouco o payback, mas a energia consumida na hora continua livre da cobrança e a compensada ainda vale a maior parte da tarifa. A dúvida real é a regra de 2029 em diante, que depende da ANEEL. Para ver todos os temas de regulação e fatura no mesmo lugar, acesse a página Regras e conta de luz.

Perguntas frequentes

Quem instalou energia solar em 2022 paga Fio B?

Se o pedido de acesso foi protocolado até o início de janeiro de 2023, não. O sistema fica no grupo GD I, com as regras antigas até 31 de dezembro de 2045. A exceção é uma ampliação pedida depois desse prazo: a potência acrescentada segue a regra nova.

Comprar uma casa que já tem placas solares faz perder o direito adquirido?

Pelo art. 26 da Lei 14.300, a simples troca de titularidade não encerra o direito. Ao comprar o imóvel, peça a transferência da conta em vez de cancelar a ligação antiga e abrir uma nova.

O Fio B é cobrado sobre toda a energia que as placas geram?

Não. Ele incide sobre a energia compensada, aquela que foi injetada na rede e depois usada como crédito. O que a casa consome no exato momento da geração não passa pelo faturamento da compensação.

Quem usa autoconsumo remoto ou geração compartilhada também paga?

Sim, se o pedido de acesso for posterior ao prazo de proteção. Como geração e consumo ficam em endereços diferentes, quase toda a energia é compensada e o Fio B pesa mais. Veja como funciona o autoconsumo remoto.

O valor do Fio B pode mudar no meio do ano?

O percentual muda na virada do ano. Já o valor em R$ por kWh acompanha o reajuste tarifário anual da distribuidora, com data própria em cada concessão. Por isso a conta pode subir duas vezes no mesmo ano.

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